A hora do declínio das redes sociais

A hora do declínio das redes sociais

Não deve ser estranho a muitos leitores o estranho declínio a que se tem assistido nas redes sociais: menos utilizadores, menos partilhas, menos assuntos para partilhar. Ultimamente, os grupos e fórums, locais outrora repletos de membros activamente participantes,  onde surgiam facilmente conteúdos, comentários e diversas temáticas, têm-se tornado lugares menos frequentados, com temáticas limitadas e de actividade reduzida.

O que estará a acontecer que possa explicar este fenómeno?

A razão mais imediata que nos possa ocorrer é a mesma que provavelmente foi responsável pela expansão das redes sociais no seu começo: modas. Se há cinco anos, “estava na moda” circular nas redes sociais, ter “perfis virtuais” e fazer partilhas, de repente, parece que a moda tem mudado.

Agora, os utilizadores de redes parecem estar mais interessados na descoberta de novas aplicações móveis, e do “admirável mundo novo” de possibilidades que as mesmas abrem. Aplicações como o “WhatsApp” e afins parecem estar a concentrar a atenção e o tempo que outrora os utilizadores de Internet dedicavam a redes sociais de partilha generalizada.

Este é um dado que causa alguma estranheza, até porque a quantidade de dados, de informações que se podem partilhar nestas aplicações é incomparavelmente mais reduzida que nas redes sociais.

Convenha-se, aplicações como o “WhatsApp” – onde as comunicações são essencialmente realizadas por meia dúzia de palavras entre um número restrito e selecionado de utilizadores – não são meios idóneos para partilhar ideias, iniciativas ou tratar de temáticas do interesse da sociedade civil. Onde não há espaço para debate, para partilhar ideias, não há nada que possa interessar à cidadania, a não ser a intensa espionagem de voz, localização, fotografias, vídeos e mensagens trocadas entre utilizadores, armazenadas nalgum “Big Brother”. Porventura, estas aplicações poderão ser interessantes para mensagens corriqueiras, “conversas de café”, a título de distração privada e passatempo, mas – como qualquer distracção – não passam daí.

O pior é se estas aplicações forem utilizadas de forma descontrolada, aditiva e precisamente para os seus utilizadores se manterem numa realidade virtual paralela, em fantasias desligadas da realidade. Ao contrário das fantasias literárias e artísticas, que pelo contrário desafiam o espectador a ver para além da realidade, estas outras procuram mantê-lo afastado dela.

Se estas aplicações não passarem de opiáceos tecnológicos, então é legítimo de se presumir que, afinal, este tipo de aplicações móveis parecem estar ao serviço da alienação social. Promovendo intencionalmente a desintegração das relações sociais convencionais e a ausência de consciencialização em matérias fundamentais para toda a sociedade, parece que os “WhatsApp” andam aí para embrutecer consciências. É pois uma exigência fundamental de cidadania a de combater este tipo de plataformas, responsáveis pela massificação de comportamentos de apatia e alienação.

Mas há mais causas por detrás do declínio destas redes sociais. Em particular, estamo-nos a referir à rede social que contém mais de 1.280 milhões de utilizadores registados, o “Facebook”. O utilizador familiarizado com esta rede – cuja utilização vá para além da mera partilha de vídeos fofos e selfies sorridentes – já pode pressentir do que estamos a falar: quantas vezes já ocorreu terem as suas publicações subitamente retiradas, eliminadas, temporariamente escondidas, denunciadas como spam? Se a resposta é “pelo menos uma vez”, é porque o utilizador está ciente do lado negro desta rede.

A censura de publicações é uma realidade no “Facebook”. Sempre que algum utilizador recorre à divulgação pública de conteúdos, ocorrências, ideias ou temas, sejam eles na forma de texto, imagens e/ou vídeos, esse utilizador sabe que, à partida, o que coloca disponível para todos pode ficar com visibilidade restringida pelo “Facebook” a qualquer momento.

Frustra-se assim o propósito de assegurar a difusão de dados que os utilizadores queiram divulgar. Isto, para além de dificultar a partilha de informação entre os utilizadores da rede, naturalmente desincentiva futuras publicações e partilhas, pelo que é compreensível que muitos utilizadores se afastem desta rede e acabem por abandoná-la, desiludidos.

«O facebook é gratuito e sempre o será». É este o lema desta rede, mas não parece haver interesse em compensar os utilizadores censurados pela censura de que tenham sido alvo nas suas publicações, um dano aos seus direitos fundamentais. Uma rede social que promove abertamente práticas de censura aos seus utilizadores, que determina o que é censurável do que não é com base em critérios arbitrários como o “politicamente correcto”, sem que os seus utilizadores possam ter voz na matéria, gera a desconfiança de quem a utiliza. Com este tipo de procedimentos, é natural que as legiões de descontentes se afastem dos “Facebook”s que por aí andam.

Outra causa que pode explicar o declínio, é a inundação de publicidade a que se tem assistido nos últimos tempos por estas redes. Chega-se por vezes a ver mais publicidades nas páginas de avisos, que publicações. Até nos vídeos o utilizador não se safa. Qualquer dia, só para fazer “scroll” na barra lateral os “Facebooks” lá enfiam mais um ou dois anúncios, pelo hábito saudável que os utilizadores lhe estão a tomar. Nesse caso, seria mais congruente mudar-se o nome da rede para algo como “Publicibook”.

Um outro aspecto que possa também explicar a quebra do interesse neste tipo de rede, é a alteração ao sistema de notificações. Se outrora, assim que as publicações eram disponibilizadas, facilmente qualquer utilizador médio poderia ter conhecimento disso, agora, com a reformulação dos algoritmos de divulgação de dados, a maior parte das vezes os utilizadores perdem noção sobre o que esteja realmente estar a acontecer.

O “Facebook” alega que as sucessivas alterações aos seus algoritmos servem para “melhorar a experiência do utilizador”. Mas a verdade é que – de então para cá – essa “experiência” (intencionalmente?) se tem degradado significativamente, com o preenchimento das páginas de notificações por carrosséis de vídeos não solicitados, dificultando a navegação. Esta torna-se penosa ao ponto de desincentivar à procura de conteúdos úteis, naquilo que pode ser classificado como uma “técnica da desmotivação”, mantendo os utilizadores desinformados de conteúdos que os possam interessar.

Como podem estas redes sociais vir dizer que, ao mostrarem apenas as notificações mais importantes, a experiência dos utilizadores esteja a melhorar? Quem são estes algoritmos para insinuar o que é importante e o que não é? Precisarão os utilizadores de filtros e “feeds” que lhes digam o que é interessante e o que não deve merecer qualquer atenção? Não serão eles suficientemente capazes para descobrir isso por si próprios?

Se os utilizadores das redes sociais, partilhando dados e informações aos quais entendam dar relevância pública, se deparam com redes que impedem essa divulgação, criando barreiras e “filtros” vários para a sua difusão, outros meios devem ser por eles equacionados. Meios que possibilitem o debate fundamentado de ideias, e a discussão aberta, séria e transparente dos acontecimentos, pois só assim se torna possível um desenvolvimento pleno e efectivo da sociedade civil.

Porque certas redes sociais não souberem acautelar nem valorizar devidamente esta dimensão, é hora da sociedade civil procurar novos e melhores caminhos.

A Redacção.

P.S.: Este artigo, em conformidade com a política de redacção, é todo ele escrito ao abrigo da grafia anterior ao AOLP.