A saúde dos afectos

A saúde dos afectos


Estes dias, o país ficou em sobressalto naquilo que seria uma simples operação. Tudo teria até passado despercebido, não fosse a operação antecipada com urgência, nem fosse o seu paciente o “presidente dos afectos”. Felizmente, graças à perícia do pessoal médico e a ajuda das rezas dos portugueses, lá acabou por correr tudo bem. O país lá pôde novamente suspirar de alívio e o presidente está quase a regressar, de volta à sua incansável missão de repartir afectos.

O presidente dos afectos está tão activo e de boa saúde que – vejam – mesmo em recobro, já é capaz de promulgar quatro diplomas. Quantos o fariam no seu lugar? Nem iriam ser as sequelas do gás da operação, nem as dores pós-operatórias que iriam esgotar a “energia” presidencial.

O incansável presidente, se fosse necessário, suspeita-se, até já estaria pronto para mais uma operação, e promulgar outros tantos diplomas. Por mais afiados que estejam os bisturis, por mais intensos que sejam os gazes analgésicos, por mais silêncio que se faça na sala de operações,  parece que nada mesmo é capaz de afastar a onda de afectos transmitida pelo paciente.

É mesmo um milagre que o dito paciente possa encarar tranquilamente tantas ameaças, quando o país, só de pensar nas vicissitudes médicas, já se imagina mergulhado numa tragédia mais que provável. O melhor é pois continuarmos todos a rezar, para que tudo corra da melhor maneira. Com o auxílio apostólico dos jornalistas, a procissão dos devotos e a bênção de bispos e governantes, a via para a salvação parece estar assegurada. «Venha a Nós o vosso Reino!»

Imagine-se o que seria deste país sem este presidente dos afectos… Seria o caos, o inferno, o fim do Mundo a abater-se sobre os mortais! Sem os abraços beijoqueiros, este país ficava entregue à bicharada, sem rei nem lei, que o valesse! Os doentes incuráveis ficariam por curar, os cegos não ficariam a ver, os surdos continuariam sem ouvir e os mudos continuariam calados. Seria uma calamidade bíblica sem precedentes. Ninguém nem nada poderia sobreviver a uma desgraça dessas. Deus nos livre de tal pensamento!

Bendito seja o Presidente, e benditos os afectos que reparte pela terra. Sete Mistérios para os abraços. Outros tantos pelos seus cumprimentos calorosos. Louvado seja nas Alturas pela alegria e felicidade que espalha gratuitamente entre os mortais, curando-os de suas maleitas e desassossegos. 100 Pais-Nossos e 100 Avés-Marias, a bem do seu recobro,

Graças a Deus que a operação teve um desenlace feliz. Os portugueses já podem finalmente respirar de alívio e seguir em paz para o ano novo. Um ano que já se adivinha abençoado, com a previsível maré de afectos que o espera. Que na sua infinita misericórdia, a Providência conserve os afectos e não deixe cair o presidente em tentação.

Haja saúde!

A Redacção.

P.S.: Este artigo, em conformidade com a política de redacção, é todo ele escrito ao abrigo da grafia anterior ao AOLP.