A verdade da mentira

A verdade da mentira


Tem sido recorrente os casos das chamadas “notícias falsas”, isto é, um conjunto de dados inverídicos, normalmente não confirmados ou de ocorrência duvidosa. O fenómeno tem ocorrido sobretudo no território das redes sociais, onde – num instante e praticamente “à velocidade da luz” – qualquer um consegue disseminar dados a milhões de outros utilizadores.

Após um conjunto de procedimentos relativamente simples, um utilizador médio em qualquer recanto do mundo com acesso à «Internet» consegue partilhar dados e informação, que se torna imediatamente visível a qualquer outro utilizador com acesso à rede, onde quer que ele se encontre.

A rapidez com que todo este meio de transmissão de dados ocorre não esconde porém os perigos subjacentes. O que é que nos pode garantir que os dados transmitidos ou partilhados sejam verídicos? Como saber se o que está a ser veiculado é minimamente credível? O que separa a verdade da mentira?

Para estas perguntas não existe resposta imediata ou pré-preparada, mas há algumas pistas que podem ajudar a tornar a experiência de navegação de qualquer internauta mais confortável.

A primeira, é saber se aquilo que é transmitido é algo de completamente absurdo porque inverídico e falso.

Este é o plano das verdades objectivas, onde dificilmente surgem dúvidas, porque dizem respeito a dados provados, havendo um consenso unânime de que a prova foi bem efectuada. Por exemplo, ninguém minimamente capaz irá concordar com publicações que afirmem (e demonstrem) que a terra é plana; que a gravidade terrestre não existe; ou que é o Sol que gravita em volta da Terra. Porque se tratam em muitos casos de evidências comprovadas, tanto “cientificamente” como pela experiência de qualquer um, este campo das verdades objectivas não levantará dúvidas aos utilizadores de redes.

Onde se vão colocar inevitavelmente questões é no campo das chamadas “verdades subjectivas”. Por “verdades subjectivas” não quer dizer que sejam necessariamente falsas ou duvidosas. O facto de não serem matérias provadas, não quer dizer que não possam vir a converter-se algum dia em verdades consensuais.

Este é simplesmente um campo mais exigente, em que factos, argumentação e percepções, requerem a utilização de sentido crítico. É também um campo relativamente volátil, não estático, que não se reconduz ao dualismo das posições simplistas “sim” ou “não” que – para serem dadas como verdadeiras – estão sujeitas a alguma forma de prova, reflexão e discussão alargadas.

O território das “verdades subjectivas” está fortemente sujeito a transformações: aquilo que, em certo dia, pode parecer estar bem provado e intocável, um dia, pode cair por terra, estilhaçado em mil pedaços. A área das “verdades subjectivas” tem assim uma evolução tão previsível como a do clima: é possível saber como estava o tempo no dia anterior, mas ninguém se atreve a ter certezas definitivas quanto à metereologia do dia seguinte.

O que fazer, pois, com este mundo das verdades subjectivas, tão imprevisíveis como a posição de um eletrão na nuvem eletrónica dum átomo?

Um caminho é desconsiderar a existência do universo das “verdades subjectivas”. Este é um caminho redutor, sujeito por isso a juízos éticos de reprovação: se algo não foi provado, admitir-se que – só por isso e por caprichos de alma – uma hipótese é necessariamente falsa e não merece credibilidade, pressupõe que não possa surgir novo conhecimento, que este tenha que ser finito. Uma tal concepção é demonstrada como absurda pela experiência de qualquer um.

Uma outra via, é admitir que as “verdades subjectivas” existem e que, em certos casos fundamentados e mediante um conjunto de procedimentos probatórios, podem vir a adquirir relevância, convertendo-se em verdades de aceitação tendencialmente universal. Isto é, admite-se a hipótese de que o que é subjectivo, na origem, pode tornar-se objectivável. Esta é a via consentânea com a percepção do conhecimento: uma realidade expansiva, em constante evolução.

Se se admite que, em certas condições, algumas “verdades subjectivas” possam eventualmente converter-se em objectivas, o caminho probatório que enfrentam até à sua aceitação é muitas vezes longo, difícil e penoso.

O leitor que não vê dúvidas à afirmação de que a Terra gira numa órbita em torno do Sol (e não o contrário), deverá porventura saber que houve um tempo em que tal ideia era inadmissível. Uma ideia que, de tão chocante para as mentalidades da época, era inconcebível e absurda.

Até esse período, à sociedade foi incutido precisamente a ideia oposta, de que era o Sol que girava em torno da Terra. Uma ideia que se tinha por certa, incontestável e absoluta, não fosse Galileu e outros a provarem que é na verdade a Terra que orbita em torno do Sol. E teve que o provar sujeitando-se a provações, inquisições, cárcere, custos reputacionais e perseguições pessoais, daqueles que – mesmo conhecendo a verdade – preferiam continuar a defender o embuste generalizado.

O ponto que se pretende provar ao leitor é que, aquilo que hoje toma por absoluto e provado, em tempos foi provavelmente considerado uma autêntica idiotice por muitos, normalmente por desconhecedores da matéria ou fariseus que não tinham (ou não estavam interessados em ter) a capacidade para assumir o que, por prova, sabiam que não poderia ser verdadeiro.

Este é como se disse, um caminho que só pode necessariamente conduzir a juízos morais de censura: não pode ser tomado por sério aquele que, desconhecendo a matéria ou intuito prepotente, instiga sem provas verdadeiras que é mentira ou falsidade, aquilo que outros conseguiram provar de forma transparente, clara e plena. Não é com provas falsas, forjadas ou acusações “ad hominem” que se põem em causa factos que outros satisfatoriamente conseguiram provar.

Volte-se agora ao tema das “notícias falsas”. Fora aquele campo das verdades – em princípio – objectivas, o nível das verdades subjectivas, das que carecem de provas para se decidir da sua aceitabilidade, é facilmente permeável à noção de “notícias falsas”. E isto, como indicou a reflexão que se expôs, é pernicioso.

O que é se pode considerar “aceitável”? O que é que tem condições para ser considerado minimamente aceitável do que não tem?

Quem é a autoridade para dizer o que é “aceitável” do que não é “aceitável” ou não está provado? Quem tem competências para determinar o que está bem provado na exposição duma determinada temática, do que não está?

Quais os critérios para saber se um determinado conjunto de dados é mais ou menos credível, separando factos e hipóteses, de mitos e boatos? Será a perícia científica, a experiência comum, o facto de ser sinalizado por uma autoridade, o número de pessoas capazes de o confirmar? No caso deste último critério, quantas pessoas são necessárias para corroborar um dado? Uma, duas, duzentas, duas mil, dois milhões?

Para validar ideias e ilações de factos, para que algo possa ser considerado “verdadeiro” e “válido” tem que ser publicado previamente em determinado lugar? Tem que constar nalgum jornal oficial de referência e ser confirmado por alguma “autoridade” já existente? Será que, se esses dados não forem corroborados por certas corporações e autoridades “acreditadas”, para a opinião pública, é como se eles não existissem? Se estas últimas perguntas forem respondidas afirmativamente, começa a ser suspeita a cada vez maior insistência dos organismos oficiais e suas agências de comunicação quanto às “notícias falsas”.

Porque, se tudo aquilo que fugir ao controlo dos poderes instituídos e à sua narrativa dominante for enquadrável nas “notícias falsas”, começam a ter razão as vozes que alegam de que se está a caminhar progressivamente para uma sociedade totalitária, em que o conhecimento está subordinado aos caprichos de dirigentes prepotentes.

Uma sociedade em que um conjunto de inquisidores oficiais, tal qual Santo Ofício dissimulado – em função dos seus interesses pessoais – dita à generalidade das pessoas o que é verdadeiro do que não o possa ser, não é uma sociedade livre nem desenvolvida. Quando os organismos oficiais defendem a normalização de comportamentos acríticos e o seguidismo cego de “opiniões dominantes”, papagueadas pelos seus órgãos de comunicação, a sociedade mergulha no obscurantismo, regride e pára no tempo.

Ultimamente, uma das técnicas usadas por poderes totalitários, consiste em categorizar de “teoria da conspiração”, tudo aquilo que fuja à linha das verdades e narrativas oficiais, isto é,  se uma ideia ou a discussão dum tema não foi adoptada por organismos de autoridade, é como se a mesma não existisse para o público. Uma espécie de assunto proibido, em nome de considerações prepotentes como o “politicamente correcto”, ou “o que parece bem”.

Sem negarmos a hipótese de existirem realidades absurdas e baseadas em inverdades, essas sim verdadeiras e efectivas teorias da conspiração, nesta matéria corre-se o risco de serem praticadas injustiças, considerando “cabala” o que não é, e desconsiderando aquelas que  efectivamente o sejam. A ideia é intencionalmente criar a confusão generalizada, desviando a opinião pública da atenção perante qualquer tema que directamente lhe diga respeito. Uma técnica adoptada por poderes prepotentes, corruptos e arrogantes, que se julgam donos da verdade.

Para citar alguns exemplos, faz sentido que sejam classificadas de “cabalas da conspiração” os movimentos da globalização de uma Nova Ordem Mundial (NOM)? A fluoretização das águas, a introdução gradual e sub-reptícia de Organismos Geneticamente modificados (OGM) na cadeia alimentar? A agenda da ONU de redução populacional mundial 2021? As operações de manipulação de clima e pulverizações de aerossóis em larga escala (HAARP)? Será que todas estas “cabalas” devem ter o mesmo tratamento que os Objectos Voadores Não Identificados (OVNI)? Onde está a verdade nisto?

A linha que separa a verdade da mentira neste campo pode tornar-se muito difusa mas – precisamente por isso – o leitor deve ser exigente e saber construir criticamente o seu próprio campo de verdades, e perceber que essa é uma responsabilidade sua, que não pode ser delegada em qualquer “agência oficial”. Se o leitor não tem nem tempo, nem se sente capaz para construir a sua própria visão nestes temas, não passa de mais um alienado, um mero carneiro de rebanho disposto a seguir qualquer pastor perverso, mesmo que este lhe empurre para o precipício.

Afinal, quem a pretexto de “notícias falsas”, “teorias de conspiração” ou outros aparelhos de censura encapotada, não está interessado em saber, ou pretende mesmo dificultar a difusão de dados e hipóteses verdadeiras, relevantes e úteis, só tem é que desligar das redes e ir viver numa torre de marfim. De preferência, que seja numa ilha deserta.

A Redacção.

P.S.: Este artigo, em conformidade com a política de redacção, é todo ele escrito ao abrigo da grafia anterior ao AOLP.