A longa marcha dos CTT

A longa marcha dos CTT

Se é um utilizador de tecnologias, provavelmente o seu primeiro gesto, depois de ligar o computador e conectá-lo à rede, é consultar o seu correio electrónico.

Este gesto, repetido por milhões de pessoas em todo o mundo, constitui uma evidência flagrante de que o correio electrónico passou a ser o principal meio para receber comunicações e notificações de um modo rápido, cómodo, eficaz e relativamente seguro.

Mas há sempre quem resista à mudança dos tempos.

Há particulares e empresas que continuam a enviar  documentos, encomendas ou bens por via postal física, porque esse é o modo habitual de funcionamento do seu negócio, porque é esta a prática habitual com os seus clientes e fornecedores, porque esse é o seu modo de vida.

Há pessoas que não sabem utilizar as novas tecnologias e que, para efeitos de comunicação, preferem recorrer à via postal física, porque a literacia tecnológica é desigual entre a população, e muito assimétrica.

Também por ocasião de épocas festivas ao longo do ano, há os que recorrem aos correios para enviar simples postais assinados, desejando boas festas a parentes, familiares ou conhecidos em paragens distantes.

Isto sem falar dos turistas, estudantes que – em jeito de graça ou simples lembrança – resolvem enviar postais dos locais em que se encontram no estrangeiro, tornando a recepção dos postais toda uma experiência para os destinatários.

Há ainda contribuintes que insistem em ser notificados por via postal, o que até se compreende perfeitamente, porque ninguém garante que o contribuinte esteja em condições de aceder ao seu correio electrónico se, por exemplo, o mesmo estiver de forma prolongada sem acesso à rede em razão do local em que se encontra. Sobre isto importa algumas notas.

A título de exemplo caricato, e não assim tão impossível, basta pensar no caso de um contribuinte “azarado”  que recebe uma notificação eletrónica para penhora, enquanto se encontra de férias, nalgum lugar isolado do resto do mundo. Caso a penhora seja ilegal, como é que o contribuinte se poderá defender, se nem sequer sabe que vai ser penhorado enquanto está no escuro? Será que só poderá tomar conhecimento da penhora, depois de voltar de férias, quando a “maldade” já foi feita?

A via eletrónica tem as suas falhas, sobretudo quando se insiste em assumir que a mera passagem do tempo – veja-se, de uns mero cinco dias úteis – possa servir como presunção de que alguém está informado duma notificação fiscal cuja existência… desconhece. «Presunções e água benta, cada toma a que quer». E o fisco, ou por defeito ou por feitio, é muito devoto.

Voltando ao nosso tema, o que seria de toda esta gente referida sem os correios físicos, em papel?

Os correios têm um papel social insubstituível, o de permitir ou facilitar certo tipo de comunicações entre pessoas, de um modo que outros meios não o conseguem fazer tão bem. Pelo seu carácter de proximidade na vida das pessoas, e a sua tendência para uma utilização generalizada, é sem dúvida um serviço fundamental para as comunidades, de natureza pública.

Sucede que este serviço público tão essencial está hoje em sério risco.

Ficou-se a saber que a empresa responsável pelo serviço de correios em Portugal planeia um corte de despesas operacionais, com redução de pessoal, chegando a atingir pelo menos oitocentos funcionários. Este anúncio é  pois o derradeiro alarme de que o sector dos correios físicos em Portugal precisa de ser urgentemente reestructurado, ou corre o risco de deixar de existir.

Este anúncio não deve ser assim tão surpreendente, porque mesmo antes do alarme ter soado, já havia sinais de que algo não estava a correr bem. Os observadores mais atentos sabem, por exemplo, que – a nível de cotações de bolsa – em 2015, a empresa CTT chegou a valer 10,3 euros por acção. Desde então, esse valor tem vindo a cair a pique, tanto que nem subidas pontuais e limitadas conseguiram mascarar o tombo contínuo sofrido pela empresa.

Uma das maiores quedas registou-se este ano, há bem pouco tempo, no período entre finais de Outubro e Novembro, quando o valor individual de uma acção dos CTT passou de 5,06 euros a 3,08 euros. Trata-se de uma queda de mais de 39,1% do valor de cotação da empresa. Isto é um flagelo autêntico, uma machadada na confiança dos actuais e potenciais investidores na empresa, em todos os que acreditam no seu valor e crescimento. Para não facilitar as coisas, parece que o banco dos CTT’s foi uma aposta falhada.

Uma empresa com um cenário destes sabe que está com problemas sérios, e as suas equipas de gestão sabem que têm que agir depressa, antes que seja tarde demais, assumindo que ainda estão a tempo.

Não se adivinha que os próximos tempos sejam fáceis para a empresa.

Por um lado, estão as pressões de investidores e institucionais para que a gestão da empresa reponha os níveis de rentabilidade da empresa, e a torne mais competitiva. Sendo os correios uma empresa comercial, é natural que exista esta preocupação, pois sem um patamar de lucros mínimos, qualquer empresa deixa de ser viável e os seus donos não vêm razões para continuar a investir nela.

Por outro, há os trabalhadores cujo posto de trabalho está em risco, com reestruturação que se antevê. Há ainda os utentes dos serviços de correio, que correm o risco de perder qualidade nos serviço, sendo mesmo possível que deixem de ter acesso aos correios em condições razoáveis, caso ocorra o fecho de postos de correios, nomeadamente em zonas rurais interiores, afastadas dos centros urbanos.

Vai ser uma longa marcha aquela que os CTT’s têm pela frente. Uma marcha que, não se pense, ficaria facilitada se os correios pertencessem ao Estado. Esta é uma falácia perigosa que importa esclarecer.

Não é o facto de uma empresa prestar um serviço público essencial, que faz com que – se ela passasse para o Estado – esta se tornaria necessariamente lucrativa ou mais lucrativa. Uma posição destas é mais própria de demagogos de má-fé, que pensam que podem mascarar com banalidades ideológicas as realidades objectivas de gestão que – independentemente da natureza pública ou privada da empresa – vão continuar a estar lá.

É preciso acabar com este tique compulsivo de que, sempre que uma empresa está mal, “o Estado” tem que aparecer como o bombeiro de serviço, disponível, altruísta e sempre disposto a sacrificar-se. Desenganem-se os demagogos que pensam que os problemas actuais dos CTT’s deixariam de existir se a empresa continuasse no Estado. Como podem saber esses demagogos que, se o Estado não tivesse privatizado a empresa, esta hoje estaria de boa saúde? Será que foi a gestão privada, o “papão” que deu cabo  de uma empresa que para muitos era uma “galinha dos ovos de ouro”?

Dificilmente se conseguiria acreditar em tal hipótese, uma vez que se tem assistido gradualmente a uma diminuição generalizada no recurso aos correios. No mundo moderno e de rápidas evoluções, os CTT parecem estar a ficar para trás perante a avalanche tecnológica de «SMS»,  «emails», redes sociais e aplicações móveis. Até o próprio fisco, tem a sua quota parte de culpa no tombo dos CTT, pela sua decisão recente de diminuir o recurso à via postal física, preferindo meios eletrónicos nas comunicações com os contribuintes.

É, pois, num contexto desafiador, que nos resta ver como os correios se irão comportar na longa marcha que têm pela frente.

A Redacção.

P.S.: Este artigo, em conformidade com a política de redacção, é todo ele escrito ao abrigo da grafia anterior ao AOLP.